Prefácio

por  André Ilha

A cidade de Petrópolis é, inquestionavelmente, um dos principais centros de escalada de todo o Brasil, e dois fatores são decisivos para conferir veracidade a esta afirmação: suas montanhas e seus montanhistas.

Apesar de ter perdido significativas extensões de seu território original para municípios que se emanciparam recentemente, como São José do Vale do Rio Preto e Areal, Petrópolis ainda reteve em seus limites um extraordinário conjunto de montanhas de grande porte, que se constituem em um verdadeiro paraíso para os escaladores. Suas montanhas apresentam, em geral, um formato arredondado – grandes domos graníticos encimados por densa vegetação e ostentando paredes lisas, com um imenso potencial para escaladas livres, especialmente vias de agarras e aderência protegidas por grampos, embora muitas fendas pequenas também possam ser encontradas pelos observadores mais atentos.

Estas grandes montanhas, entre as quais se destacam Maria Comprida, Mãe D´Água, Cantagalo, Pedra do Cortiço e outras, parecem ter servido de poderosa fonte de inspiração para os moradores da pequena cidade serrana, pois desde a década de 30 que elas vêm sendo trilhadas, por caminhada ou por escalada, por jovens e veteranos locais, que estabeleceram, ali, um sólido núcleo de praticantes do “esporte diferente”, muitos deles reunidos em torno do tradicional Centro Excursionista Petropolitano – CEP, fundado em 15 de maio de 1958, e dos dois clubes que o antecederam.

Na verdade, pode-se dizer que, para o tamanho da cidade, existe um número desproporcionalmente grande de excelentes montanhistas em Petrópolis, desde dedicados caminhadores, que não se cansam de percorrer os roteiros mais aventureiros da cidade e da vizinha Serra dos Órgãos, quanto de escaladores que se situam na elite dos praticantes de todas as modalidades da escalada em rocha, do bouldering às vias de big wall, passando pelas vias esportivas e, principalmente, pelas escaladas em livre de todos os tamanhos e graus de dificuldade.

E quando falamos em elite não nos referimos apenas à competência técnica, mas também à firme defesa dos princípios éticos que norteiam o nosso esporte, sendo inconcebível, para o escalador petropolitano típico, coisas como a grampeação de fendas, a utilização de agarras artificiais em rocha ou o estabelecimento de “paliteiros” medíocres.

Por tudo isto, é com orgulho e satisfação que recebi o convite para prefaciar este Guia de Escaladas de Petrópolis, obra que nos chega já com considerável atraso, tendo em vista a importância da área por ela coberta.

Normalmente espera-se que quem prefacia uma obra vá falar palavras simpáticas sobre a mesma, mas neste caso os autores facilitaram muito a tarefa, pois trata-se de uma produção apurada, tanto na forma quanto no conteúdo. O guia inclui quase todas as escaladas existentes em Petrópolis, salvo poucas exceções em pontos extremos do município. Para melhor compreensão, as montanhas aparecem divididas em setores, que vão desde aquelas existentes na subida da serra (Pedra do Rolador e Agulha do Cuíca) até os grandes morros de Secretário, passando pela estrada do Contorno (BR-040, Araras) e pelas escaladas urbanas do Morro da Formiga e adjacências.

Mapas explicativos localizam perfeitamente cada montanha, falésia ou bloco em seu respectivo setor, e todas as vias foram incluídas em fotodiagramas, montados sobre ótimas fotos de Alexandre Berner. Pequenas descrições individuais sobre cada via completam um conjunto de dados que possibilitam qualquer um achá-la e saber o que dela esperar. Estas, afinal, são as principais funções de um guia de escaladas, e o trabalho de Luciano e Paulo Lucio as atende muito bem.

O guia também resgata muitos dados importantes da história da escalada em Petrópolis, tendo os autores entrevistado vários escaladores que tiveram importância no desenvolvimento local do esporte. O surgimento e o desaparecimento dos diversos clubes que a cidade já teve, a evolução dos estilos, as vias que marcaram cada época – tudo isso é abordado de forma sucinta, mas clara, ajudando os jovens leitores a enxergarem o tempo atual em perspectiva, e os pioneiros a recordar aventuras passadas.

Esta é, portanto, uma obra indispensável para aqueles que querem desfrutar de um dos mais importantes centros de escalada do País, e mais um importante passo para a documentação do rico acervo de escaladas do Estado do Rio de Janeiro.

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